Araçatuba acaba de dar um passo histórico na área da saúde e da ciência. O Centro de Pesquisa Clínica Dom Bosco, criado com apoio do UniSALESIANO, por meio do Curso de Medicina, e em parceria com a Santa Casa de Araçatuba, foi oficialmente considerado apto para conduzir estudos clínicos internacionais, colocando a cidade ao lado de grandes centros de pesquisa do Brasil e do mundo.
O centro é liderado pelos médicos Wolney Barreto, hematologista, e Igor Precinotti, infectologista, e tem a coordenação da enfermeira, Andreza Bernardi Marques, contando ainda com a atuação da hematologista e subinvestigadora, Mariana Stucchi Urazaki. Todos integram o corpo docente do Curso de Medicina do UniSALESIANO, sendo que os médicos Wolney e Igor acumulam mais de uma década de experiência em pesquisa clínica em centros de excelência, como a Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto e a Unifesp – Escola Paulista de Medicina.
“Os centros de pesquisa clínica são responsáveis por testar, em seres humanos, novas terapias e medicamentos, sempre seguindo protocolos rígidos de segurança e ética. É assim que a ciência avança e que tratamentos inovadores chegam aos pacientes”, explica Wolney.
Após a implantação do Curso de Medicina, o Centro de Pesquisa Clínica Dom Bosco começou a ser estruturado em 2020 e, ao longo de cerca de três anos, passou por um rigoroso processo de organização técnica, capacitação de equipe e adequação de fluxos, sempre com o suporte institucional do UniSALESIANO. “Para que um centro seja escolhido por patrocinadores nacionais e internacionais, ele precisa demonstrar capacidade técnica, qualidade de dados e processos comparáveis aos melhores centros do mundo. Esse reconhecimento mostra que atingimos um nível de excelência internacional”, destaca Igor.
No ano passado, o centro passou a receber visitas de patrocinadores — como são chamadas as indústrias farmacêuticas responsáveis pelos estudos — e foi oficialmente aprovado para conduzir dois grandes estudos clínicos, ambos voltados a doenças onco-hematológicas.
LEUCEMIA
Um dos estudos, já em fase de início, é voltado ao tratamento da leucemia linfocítica crônica, o tipo mais comum de leucemia em idosos. A pesquisa avalia a eficácia e a segurança de uma nova molécula inovadora, comparada ao melhor medicamento atualmente disponível no mercado — que, no entanto, não é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
“Estamos falando de pacientes que, muitas vezes, já esgotaram as opções terapêuticas disponíveis. Ao ingressar no estudo, eles passam a ter acesso gratuito a tratamentos de ponta, com acompanhamento rigoroso e padrão internacional”, explica Wolney.
Segundo ele, os pacientes incluídos na pesquisa recebem, no mínimo, a melhor terapia já existente no mercado ou, alternativamente, uma nova medicação que pode se mostrar ainda mais eficaz. “É um ganho para todos: para o paciente, que recebe um tratamento de excelência; para o SUS, que deixa de arcar com esse custo; e para a ciência, que avança no desenvolvimento de novas terapias”, reforça.
O estudo é multicêntrico internacional, com participação de centros da Europa, Austrália, Estados Unidos e Brasil. No Estado de São Paulo, apenas três instituições foram aprovadas para conduzi-lo: a USP-SP, o Hospital Nove de Julho e o Centro de Pesquisa Clínica Dom Bosco, em Araçatuba.
“Isso mostra que a qualidade do que é feito aqui é comparável aos maiores centros do país e do mundo. O que realizamos em Araçatuba é exatamente o que é feito em hospitais da França, dos Estados Unidos ou da Austrália”, ressalta Igor.
As amostras dos pacientes, por exemplo, são enviadas para laboratórios globais, incluindo centros na Alemanha, garantindo padronização internacional na análise dos dados.
INTEGRAÇÃO
A pesquisa clínica está integrada à estrutura da Santa Casa de Araçatuba, especialmente ao setor de oncologia, onde os pacientes já realizam seus tratamentos. Para os médicos, essa proximidade é fundamental.
“Pesquisa clínica precisa estar onde o paciente está. E a Santa Casa, por meio de seu provedor, Dr. Éverton Santos, e do Superintendente, Fabiano Ferreira de Paula, foi extremamente aberta e parceira desde o início, entendendo a importância científica, assistencial e social desse projeto”, afirma Wolney.
Os pesquisadores também destacam o papel decisivo do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do UniSALESIANO, reconhecido pela agilidade e seriedade na análise dos estudos. “A burocracia é um dos maiores desafios da pesquisa no Brasil. Ter um CEP eficiente faz toda a diferença para que possamos participar de estudos competitivos no mesmo tempo do que acontece fora do Brasil”, explica Igor.
Com a aprovação oficial dos primeiros estudos, o Centro de Pesquisa Clínica Dom Bosco entra agora em uma nova fase: a do recrutamento de pacientes e da execução prática dos protocolos internacionais.
O estudo sobre leucemia linfocítica crônica terá um período de recrutamento de aproximadamente um ano, com pacientes de Araçatuba e de toda a região.
“Agora estamos finalizando as etapas regulatórias, ativando os sistemas internacionais e iniciando o recrutamento. Todo o processo é rigorosamente ético, com termo de consentimento e acompanhamento contínuo do paciente enquanto houver benefício clínico”, explica Wolney.
Além desse protocolo, o centro já foi selecionado para um segundo estudo, voltado ao tratamento do mieloma múltiplo, outra doença onco-hematológica de alta complexidade. A expectativa é que a visita de iniciação desse novo estudo ocorra a partir de abril.
RESPONSABILIDADE
Para Igor Precinotti, o crescimento será sempre guiado pela responsabilidade científica. “A pesquisa clínica depende da qualidade dos dados. Por isso, nossa decisão é crescer com cautela, garantindo excelência em cada estudo. Só abrimos novos protocolos quando temos certeza de que conseguiremos manter o padrão internacional que nos trouxe até aqui”, afirma.
Os próximos passos incluem ainda a capacitação contínua da equipe técnica, a ampliação gradual das áreas de pesquisa — como tumores sólidos e infectologia — e a consolidação da presença do centro na oncologia da Santa Casa, que contará com salas exclusivas para pesquisa clínica após a ampliação do setor por meio da revitalização que está sendo feita no CTO (Centro de Tratamento Oncológico), com recursos do Curso de Medicina do UniSALESIANO.
“A pesquisa melhora a assistência. Tudo o que trazemos em termos de protocolos, certificações e qualidade acaba beneficiando todos os pacientes, inclusive os que não participam diretamente dos estudos”, reforça Wolney.
A médio e longo prazo, o projeto também fortalece o ensino médico, abrindo caminho para que acadêmicos do Curso de Medicina do UniSALESIANO tenham contato com a pesquisa clínica, uma realidade ainda restrita a poucas instituições do país. “Estamos construindo algo sólido, que impacta o presente dos pacientes e o futuro da medicina na nossa região”, frisa.
Para o Pró-Reitor de Ensino, Pesquisa e Pós-Graduação do UniSALESIANO, Prof. Dr. André Ornellas, o reconhecimento do Centro de Pesquisa Clínica Dom Bosco representa a consolidação de um projeto acadêmico-científico de longo prazo.
“Esse avanço reafirma o compromisso do UniSALESIANO com a produção de conhecimento de impacto real na vida das pessoas. Não se trata apenas de pesquisa de alto nível, mas de uma ciência que nasce integrada ao ensino, à ética e à responsabilidade social. Ver Araçatuba inserida no cenário mundial da pesquisa oncológica mostra que é possível fazer ciência de excelência fora dos grandes centros, quando há planejamento, investimento institucional e profissionais altamente qualificados”, conclui.